sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:

Ana Cristina César

terça-feira, 25 de agosto de 2009

"Responder à mais simples questão cotidiana, ou reagir à observação mais corriqueira, demanda pôr entre parênteses uma gama potencialmente quase infinita de possibilidades abertas ao indivíduo."

Anthony Giddens

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

salva de palmas, eu nem esperava.
só desgraça, só desgraça.
é a ordem que importa.
em que lugar você está? você vai vencer.
levantar ou estacionar. vacilo teu.
resolve aí, ou toca aqui.
saber, se ver, se colocar no lugar.
admitir, telefonar ou só escrever?
não digerir direito, ter que dirigir, ou suportar, pagar sem ver.
preguiça de cinema, prefere tv. tá em vhs, só tem dvd.
calcular, recontar, meio-brigar, ficar sem ver, ficar sem falar.
cumprimentar, dar oi, fingir não enxergar ou invesgar,
atender o celular. pra sair fora é só acenar.
mas mesmo assim prefiro pensar no melhor.
não sei se faz tão bem assim pra mim.
por mais que a gente esqueça uma hora se lembra.
mas mesmo assim prefiro pensar no melhor.
não sei se faz tão bem assim pra mim.
por mais que a gente esqueça uma hora se lembra.
soco na cara, eu sempre aguentava.
é só trapaça, só trapaça.
é a volta que me importa.
que parada que tá? onde tu vai descer?
tem que aprender, tem que agüentar.
aceita aqui não é tão ruim assim.
saber que ver não é só enxergar.
resistir, se adequar, saber receber.
não recordar direito, ter que fingir, e aguentar contar nos dedos.
revista, esquema, ou prefere me ver?
mandar um sedex ou esperar receber?
recear, recortar, meio-brigar.
ficar sem você. ficar a se deter, sem olhar.




ALBERTINHO DOS REYS.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Aqui hoje

Já somos o esquecimento que seremos.
A poeira elementar que nos ignora
e que foi o ruivo Adão e que é agora
todos os homens e que não veremos.
Já somos na tumba as duas datas
do princípio e do término, o esquife,
a obscena corrupção e a mortalha,
os ritos da morte e as elegias.
Não sou o insensato que se aferra
ao mágico sonido de teu nome:
penso com esperança naquele homem
que não saberá que fui sobre a Terra.
Embaixo do indiferente azul do céu
esta meditação é um consolo.

Jorge Luis Borges

terça-feira, 5 de maio de 2009

Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."

(Clarice Lispector )


(ja que o barba negra abandonou o navio, ao menos temporariamente.eu posto).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Há sempre algo de ausente que me atormenta.


Camille Claudel

quinta-feira, 23 de abril de 2009

POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

in "Para não esquecer" - 5ª ed. - Siciliano - São Paulo, 1992

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Rima rica/Frase feita
Nei Lisboa




Desculpe, meu bem
Se ontem te fiz chorar
Mas a vida é assim mesmo
Não se pode exigir
Pouco dá pra esperar
Muito obrigado por tudo
Pelo teu suor, pelos teus gemidos
E espero que a minha estupidez
Cicatrize teus sentimentos feridos
Nasci e morro assim, só
Perdido no escuro, dentro de mim
E vou cruzando o barro
Vou comendo pó
Até que chegue o fim
Mas a força eu retiro
Sugo feito vampiro
De saber que as estrelas
Também vivem sós
De um cigarro amassado
De uma rua deserta
De outros que até eu posso sentir dó
Da menina de olhos grandes como a lua
De uma noite sentindo tua carne crua
E dos bares, das festas
Dos vinhos, serestas
Das mentes infestas de podres horrores
De mil desamores
Do chope das quatro
Desse louco mundo putrefato
Dessa grande peça de teatro

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Quando o homem inventou a roda
logo Deus inventou o freio,
um dia, um feio inventou a moda,
e toda roda amou o feio.

Zeca Baleiro

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Acaba de se divorciar: “ Aqui a vida corre como se fosse um corredor. Pouca coisa de interesse de um lado e de outro, pelo menos de interesse para mim, que vou perdendo o interesse a medida que os anos passam. Não sei se estou muito puto com o exterior ou se simplesmente não me importa mais. Não escrevo e não sei o que vai ser da minha vida nos próximos ...” Ah, caralho.”

( In: O insaciável homem-aranha)
pedro juan gutierrez