"Quanto à nova guerra mundial que espera no útero do tempo, um feto saudável e bem desenvolvido, quem poderá dizer qual a centelha capaz de desencadeá-la e quão destruidora será? Há muito brincamos com ela em filmes e livros de ficção, o que indica que há pelo menos uma parte nossa que a deseja desesperadamente. Como são tolos os cineastas e escritores quando afirmam que todas aquelas visões terríveis que eles criam seriam uma espécie de advertência! Advertência coisa nenhuma - puro desejo de que tudo aquilo aconteça! Certa vez alguém afirmou que a guerra é uma forma de cultura e ela não deixa de ser, realmente, uma forma legítima de transmitir uma cultura, embora quase sempre a cultura transmitida não seja exatamente aquela que esperávamos."
Anthony Burgess
domingo, 31 de outubro de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
A função da arte
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!
Eduardo Galeano
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!
Eduardo Galeano
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) -
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas -
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas n]ao davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas -
passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas -
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas n]ao davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas -
passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros
terça-feira, 4 de maio de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Flores do Bem
Minha mãe me queria grande grande,
eu preferi encontrar minhocas,
eu decidi pescar uns peixes.
Meu pai me queria homem,
eu preferi refar as plantas,
eu decidi colher as flores.
eu aprendi com as flores
Benditas flores sem vocês não sou ninguém.
Minha irmã me queria santo,
eu descobri que amava os vícios,
eu precisei andar com as bruxas.
eu aprendi com as flores.
Meu pai me queria impálido,
eu decidi correr das brigas,
eu aceitei levar uns socos.
eu aprendi com as flores.
Benditas flores sem vocês não sou ninguém.
MoMo
eu preferi encontrar minhocas,
eu decidi pescar uns peixes.
Meu pai me queria homem,
eu preferi refar as plantas,
eu decidi colher as flores.
eu aprendi com as flores
Benditas flores sem vocês não sou ninguém.
Minha irmã me queria santo,
eu descobri que amava os vícios,
eu precisei andar com as bruxas.
eu aprendi com as flores.
Meu pai me queria impálido,
eu decidi correr das brigas,
eu aceitei levar uns socos.
eu aprendi com as flores.
Benditas flores sem vocês não sou ninguém.
MoMo
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
O espinho desaguou
Quisera, meu amor, te abrir
Pra curar seu coração
Te cortar pra filtrar o seu sangue azedo
A flor vai dobrar o seu punhal
Despedaçar na sua mão
O espinho desaguou
A flor vai dobrar o seu punhal
Pudera, meu amor, te invadir
Consertar seu coração
Te apertar, te espremer pra expelir seu medo
A flor vai dobrar o seu punhal
Despedaçar na sua mão
O espinho desaguou
A flor vai dobrar o seu punhal
Momo
Pra curar seu coração
Te cortar pra filtrar o seu sangue azedo
A flor vai dobrar o seu punhal
Despedaçar na sua mão
O espinho desaguou
A flor vai dobrar o seu punhal
Pudera, meu amor, te invadir
Consertar seu coração
Te apertar, te espremer pra expelir seu medo
A flor vai dobrar o seu punhal
Despedaçar na sua mão
O espinho desaguou
A flor vai dobrar o seu punhal
Momo
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
a vida do marcello - Menos
Eu sei
Eu sei que não era pra eu ser assim
que eu devia tomar as doses nas horas certas
Eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
e que eu devia fumar menos
escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços
e beber menos
e amar menos
eu devia parar
e pensar menos
eu sei que eu devia pensar menos
e falar menos
eu sei que eu devia falar menos
pra viver mais
eu sei que eu devia viver menos
mas eu não sei viver menos
Porcas Borboletas
Eu sei que não era pra eu ser assim
que eu devia tomar as doses nas horas certas
Eu sei que eu devia dormir boas noites de sono
e que eu devia fumar menos
escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis
e perambular menos na rua quando todo mundo já foi
e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços
e beber menos
e amar menos
eu devia parar
e pensar menos
eu sei que eu devia pensar menos
e falar menos
eu sei que eu devia falar menos
pra viver mais
eu sei que eu devia viver menos
mas eu não sei viver menos
Porcas Borboletas
sábado, 19 de dezembro de 2009
Você se lembra de anteontem?
ouvidos acostumados a distinguir à distância o rumor das coisas que se aproximavam percebem sob o tropel confuso das massas cuja sombra começa a dominar o horizonte da nossa cultura os passos do homem de destino não há a estas horas país que não esteja à procura de um homem isto é de um homem carismático ou marcado pelo destino para dar às aspirações das massas uma expressão simbólica imprimindo a unidade de uma vontade dura e poderosa ao caos de angústia e de medo de que se compõe o patos ou a demonia das representações coletivas não há hoje um povo que não clame por um César
Francisco Alvim
Francisco Alvim
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxuria convém.
Manoel de Barros
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa liberdade com a luxuria convém.
Manoel de Barros
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